Lifestyle, Moda

Comprei um Louboutin e caí do salto

(Foto: Chris Jackson/Getty Images)

Foto: Chris Jackson/Getty Images

Eu e todas as outras mulheres deste planeta (que conhecem e gostam um pouquinho só de moda) sonham em ter um par de sapatos Christian Louboutin, ou só Louboutin para os íntimos! São aquelas sandálias das solas vermelhas, sabe? É difícil de dizer o poder que a moda tem na mente feminina, mas acontece que nossos olhos brilham com uma bolsa Chanel ou um sapato Louboutin na nossa frente. Comprar um desses? Parece um sonho, resolveria todos os nossos problemas como num passe de mágica! Basta uma peça de grife francesa ou italiana de luxo para transformar uma simples mortal na Carrie Bradshaw, da noite para o dia!

E por que esse solado vermelho Louboutin faz parte do imaginário das mulheres? A explicação é rápida e simples: Luís XIV, o Rei Sol, usava saltos e solas vermelhas (ele era baixinho e isso era um truque e tanto para dar poder à imagem dele). É só olhar qualquer quadro com a figura dele e reparar nos seus pés. Herança da corte francesa, essas solas vermelhas não poderiam não ser sinônimo de nobreza, sofisticação e até ostentação.

Mas voltando aos dias de hoje, a paixão por um Louboutin é tanta que levou eu e muita gente (a maioria mulher, claro) a ficar horas (umas três ou quatro) em uma fila apertada no meio da rua e sem luxo nenhum em um evento chamado Friends & Family. Uma amiga me mandou um convite dizendo “é restrito, não repassa muito, mas os pares saem por R$ 1200 até R$ 500, vale muito a pena”.

Expectativa: Amanda Seyfried no CFDA Awards 2015 com seus Louboutins perfeitos!

Expectativa: Amanda Seyfried no CFDA Awards 2015 com seus Louboutins perfeitos!

Eu, louca para ter meu primeiro par com solas vermelhas, fui correndo! Era um bazar de desconto da marca francesa, ao lado do Shopping Iguatemi, em São Paulo. Essa minha amiga me explicou como era lá: você tem 15 minutos em uma sala, tem que correr, não pode pensar muito e só dá para entrar sete pessoas por vez! “Monta uma estratégia” me alertou ela! Parecia que eu estava indo à guerra! Eu estava nervosa porque ela me lembrou da questão da numeração. Na Europa são 2 número a mais, então, quem usa 37 calça 39 lá, mas isso não é tão simples; eles trabalham com 39 e 1/2, o que me deixou mais confusa porque eu uso 37/38 aqui. Ou seja, tinha que provar vários tamanhos em pouco tempo. E toda mulher sabe que dependendo do modelo, o número pode variar.

Eu só pensava que valia a pena cada minuto de espera, cada estratégia montada. No tempo que fiquei esperando, conversei com muita gente na fila: meninas que tinham fugido do trabalho na hora do almoço e acabaram desistindo porque o chefe não parava de mandar mensagens (o que elas xingaram esse chefe, não está escrito), gente que estava à passeio de outras cidades e até um grupo de meninas que revelou que não tinha o nome na tal da lista vip. Elas estavam preocupadas “precisavam entrar de qualquer jeito”.

A verdade é que meu nome também não estava na tal lista… Minha amiga que tinha me mandando o e-mail. Mas no fim deu certo, todas saímos da fila da rua e, finalmente, entramos em uma sala super apertada dentro de um conjunto comercial. Para nossa surpresa com mais fila ainda e sem ar-condicionado (era verão, aliás).

Cada menina que saia da disputada sala, onde os sapatos estavam expostos, exibindo uma sacola cheia (ou nem tão cheia assim), sofria um interrogatório: “Tem muita coisa?”, “Tem número 37?”, “tem bolsas?”. Eu era uma das primeiras a engrossar o coro: “Os preços valem a pena mesmo?”, “Tem muita gente na fila mais para frente?”. Algumas mulheres chegaram a abrir os pacotes e a mostrar as novas aquisições, empolgando ainda mais a fila.

Depois de mais algumas horas, cheguei à tão esperada sala e várias mulheres da marca me apressavam: “quinze minutos só, vamos lá”, eu me senti pressionada e eufórica e acabei comprando 4 pares de sapatos e uma carteira. Ao todo: 3 mil reais e pouco. Saí feliz, um pouco culpada confesso, mas pensava que o design francês e as solas vermelhas transformariam meu guarda-roupa.

Cheguei em casa e logo calcei uma das minhas novas aquisições: uma sapatilha dourada. Tinha um evento de beleza , então, peguei o carro, parei próximo ao local e fui orgulhosa com as minhas novas flats de solas vermelhas. Caminhei pouco porque fiquei só uma hora lá, andei, no máximo, 2 quadras no Itaim, porque estava chovendo.

Quando cheguei em casa, qual foi minha surpresa? Mostrei os novos acessórios para a minha irmã e quando dei de cara com a sola ela estava inteira descascada! Já? Comprei hoje e o tão sonhado Louboutin com suas famosas solas vermelhas e elas eram tão sensíveis que não aguentavam o asfalto (ruim de São Paulo, é verdade) e um pouco de chuva? Fiquei inconsolável! Fiquei com vergonha de revelar o preço da liquidação de cada sapato para ela, inventei um valor mais baixo para não ficar tão sem graça.

De que me vale a pena pagar R$ 500 reais (na maior liquidação da história) por um sapato que não resite ao atrito com o asfalto? E paguei R$ 800 nos de salto! Imagine se eu tivesse comprado na loja (pagando 3 mil em um par), estaria muito mais irritada! Senti-me como a Rebecca Bloom em uma cena do filme Delírios de Consumo de Rebecca Bloom em que ela volta de uma liquidação e descobre que a luva de cashmere era, na verdade, composta de 5% de cashmere e 95% de acrílico.

Confesso que pensei que o par veio com defeito, no começo, fui pesquisar na internet e descobri que é normal mesmo que os Louboutins percam a cor da sola nas regiões de mais desgaste. No caso das sapatilhas, a sola toda sofria, já que a flat encosta inteira no chão. A Sapataria do Futuro do Shopping Iguatemi tem até um serviço que protege as solas com uma borracha vermelha, já prevendo esse problema! “Não vai usar isso, vai ficar pior, parecendo fake”, ouvi de outra amiga.

Pesquisei algumas fotos de famosas e, reparando bem, os Louboutins delas também pareciam descascados! Bom, não de todas. Vi uma foto de Paris Hilton saindo da balada e me identifiquei… Então, liguei para a loja da marca em São Paulo e me falaram o que eu já tinha concluído: “Em red carpet a sola dura porque é tapete, né? Em pisos lisos também, fora que são sapatos novinhos, usados uma vez só pelas famosas. No chão descasca mesmo, mas ninguém vai ficar reparando”, me falou uma vendedora. Bom, eu não vivo em um red carpet, preciso de um sapato que possa me acompanhar no Itaim e não Cannes! Além disso, não queria usar um sapato uma vez só, a ideia era me acabar em uma festa de formatura ou casamento com eles!

Paris Hilton e seu Louboutin descascado em uma festa do Grammy de 2012

Realidade: Paris Hilton e seu Louboutin descascado em uma festa do Grammy de 2012

Oras, se a tal da sola é o grande diferencial dessa marca e se eles cobram até 6 mil por um par, ganharam até o direito exclusivo de fazer o solado vermelho na justiça francesa, não tinha como fazer uma sola que durasse mais de um dia? “É assim mesmo, Má”, tentava me consolar a minha amiga que me indicou para o evento.

Não estou desmerecendo a marca, de forma alguma, os sapatos têm um design diferente e interessante mesmo. Mas confesso que fiquei pensando sobre os sonhos que a moda aguçam e a realidade… Eu nunca tive um sapato francês de luxo antes, pensei, sinceramente, que a qualidade era tanta que a sola demoraria mais de um dia para descascar! Fiquei decepcionada com o meu primeiro Louboutin. Mais do que isso, nunca pensei que me preocuparia tanto com uma sola! Será que estamos nos esquecendo qual é a função de um sapato? Por que me preocupar tanto com uma sola, que era sinônimo de status em meados de 1600?

Olhei para a minha sapateira e comparei as outras solas (pretas, mais discretas), tinham sapatos muito mais baratos (de R$ 200 ou R$ 300), mas funcionais, com solas emborrachadas, que pareciam novas! Resultado: parei de usar os Louboutins para não desgastá-los ainda mais. Para que comprar algo e não usar, se tenho sapatos bons (e brasileiros, viu!)?

Fiquei pensando no marketing e nos editoriais que me fizeram passar por tudo isso e me peguei pensando se valia mesmo a pena! Cheguei à uma conclusão, pensando comigo mesmo: “Pé no chão. Não adianta sonhar, os sapatos não são bens duráveis e nem sempre o mais caro é o melhor para mim”.

Pois é… Caí do salto!

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  1.   22/06/2015 - 10h01

    Achei seu blog por acaso e TIVE que ler esse post! Meu sonho sempre foi ter um louboutin (meu e de mais meio mundo né?) e confesso que depois de saber que a sola vermelha desgasta eu fiquei meio desanimada :(
    De qualquer maneira parabéns pelo blog! Espero ler bastante aqui ainda =)

    •   22/06/2015 - 22h32

      Oi, Letícia! Obrigada pelo seu feedback! Meu blog está começando e espero que você goste do resto ddo conteúdo, terá muito mais por aí! Beijos!

  2. […] LifestyleComprei um Louboutin e caí do salto […]

  3.   08/09/2015 - 11h11

    Que decepção com as solas vermelhas =///

  4.   08/09/2015 - 11h12

    Poxa, Marcela! Que decepção com as solas vermelhas =///

  5. Valentina marrone
      30/09/2015 - 23h51

    Oi, tudo bem? Tu pode dizer mais sobre esse bazar? Nome e endereço?

    •   07/10/2015 - 20h43

      Oi, Valentina! Não sei te dizer exatamente de cabeça pois não me lembro mais. Vou checar nos meus e-mails e te encaminho, ok?

  6. Lavine
      06/02/2016 - 13h34

    ameeei seu texto! kkk uma maneira de escrever muito boa. alias só estou comentando para te incentivar a fazer mais posts assim :D pq sempre leio blogs mas raramente comento hahaha e realmente, uma decepçaõ se vc pensar que são aquisições tão caras!

  7.   19/02/2016 - 18h36

    Adorei a postagem Marcela, um espetáculo , me diverti muito !!! Perdi a vontade de ter um kkkkkk, por enquanto ! Quem sabe eles não mudam o material do solado ! Bjs Reghiane

  8. Rosimeire de Oliveira
      27/05/2016 - 20h13

    Marcela, pesquisando na internet sobre sobrancelhas, conheci o seu blog e depois acabei lendo também seu texto sobre os famosos sapatos de solado vermelho. Parabéns, você tem um jeito muito bacana de escrever! Grande abraço.

  9. Ana
      07/06/2016 - 11h54

    Adorei o post!
    Comprei meu primeiro Louboutin ano passado e confesso que quando usei pela primeira vez sai de casa me achando, no dia choveu e para piorar ainda tive que ir ao centro de São Paulo resolver um problema quando cheguei em casa quase tive um treco quando tirei os sapatos, a sola estava destruída, na hora tive até uma crise de choro, mas nada nessa vida é perfeito e acho que aceitei o fato.
    Você poderia dar maiores informações sobre esse evento?

  10.   21/06/2016 - 08h14

    Meu, que tapa na cara de todo esse capitalismo e moda ein? Eu também não sabia que a sola durava tão pouco! E como você disse, como assim estamos preocupados com uma sola que era status em 1600? O mundo está nos deixando sem referências certas do que é mais vantagem (algo caro que não dura só pelo preço ou algo barato que é para vida toda?) o que estamos fazendo com a nossa vida sendo escravos da midia não é mesmo? Vou até compartlhar pras minhas amigas. Para mim o Louboutin perdeu toda a graça rsrs. Adorei o jeito que escreveu parabéns.

    •   28/06/2016 - 11h35

      Samira, então. Que bom que você também pensa assim, estava achando que estava louca! Concordo plenamente!

  11. Rosane
      06/07/2016 - 16h35

    Kkkk…rindo muito com seu post, adorei!!! Confesso que fiquei decepcionadíssima quando vi a sola do meu toda descascada, pagamos tão caro para ter a tal “sola vermelha” para descascarem na primeira vez que usamos?!!!! Não é justo kkkk bjs linda

  12. Viviane
      27/10/2016 - 15h43

    Olá Marcela,
    adorei seu blog e esse texto, estou louca pra comprar meu primeiro Loubotin, mas já ciente do que vai acontecer com as solas….Vc tem detalhes do bazar, sabe se vai acontecer esse ano?
    Obrigada.

21 comentários