Moda

180 dias se passando por uma blogueira famosa

Você acha que aquela blogueira que você segue e admira escreve os textos do próprio blog dela, certo? A resposta óbvia seria “sim”. Mas infelizmente não é sempre que isso acontece, como você vai ler a seguir.

Vou contar um pouco da minha experiência de 180 dias se passando por uma blogueira famosa. Neste texto, criei nomes fictícios (e alguns detalhes que não são reais) para não prejudicar ninguém. É baseado em fatos reais (no melhor estilo O Diabo Veste Prada). Repito que a minha ideia aqui não é acabar com a imagem de ninguém e muito menos dos blogs, acredito tanto nesta plataforma que criei um!

Escrevi este texto pensando no interesse público, que sempre foi o meu norte (desde a faculdade). Para mim, o principal é o que o leitor pode ganhar ou aprender com o que eu escrevo. Mais uma ressalva: não acho que isso acontece em outros blogs conhecidos, a dinâmica de trabalho é diferente em cada caso. Mas neste blog da Páris (a partir de agora é assim que vou chamar essa blogueira com quem trabalhei) tudo o que aprendi sobre jornalismo foi por água abaixo! Mais do que isso: comecei a colocar em xeque se o que eu fazia lá era ético ou não.

Quando entrei, tinha outra menina, vou chamá-la de Andreia. Ela que se passava pela blogueira antes de mim e também ela que acompanha Páris em eventos e semanas de moda fora do Brasil. No escritório tinha mais dois sócios. Eu fui chamada para trabalhar lá com o objetivo de deixar as matérias mais  jornalísticas. De cara, comprei a ideia (lembrei dos blogs da Olívia Palermo e o The Blonde Salad, que gosto muito). Na entrevista, Páris perecia disposta a mudar os baixos números de acesso do próprio blog e contou que participava das pautas e do conteúdo.

Lembro que cheguei animada no meu primeiro dia, tinha feito um estudo detalhado sobre o www.paris.com no fim de semana, vi alguns errinhos de português, de padrão e até no layout. Na segunda-feira, fui ao escritório com dicionários de sinônimos e uma boa gramática na mão decidida a melhorar aquele conteúdo.

Mas logo nas primeiras semanas vi que o trabalho não seria fácil. Páris mal aparecia no escritório, quando ia, não era para discutir pautas, mas propostas comerciais com os sócios (um deles estava sempre no escritório). “Quando vamos discutir as pautas?”, eu questionava. “Vai tocando com a Andreia essas coisas de moda”, me respondia esse mesmo sócio com um certo desdém. Ele não parecia saber o que esperava de mim, mas tinha planos ambiciosos. “O futuro é vender o nome e o domínio do blog, ter uma redação em Nova York, quem sabe? Vamos licenciar para o mundo”, ou seja, eu tinha uma bomba no colo!

Como se a missão já não fosse difícil o suficiente, me pediram para escrever sem assinar, em primeira pessoa mesmo para parecer que Páris era a autora dos posts. Não acho que faziam isso por mal, eles eram de outras áreas, não tinham ideia de jornalismo.

Eu ensava só nos leitores e na questão ética

Eu pensava só nos leitores e na questão ética

“Como surgiu a ideia de criar o blog?”, perguntei, e um dos sócios me falou sem nem ficar vermelho: “todo mundo tinha um, era uma ótima oportunidade de negócio”. “Mas ela já escreveu algum post?” insisti e me respondiam: “Ela nunca nem entrou no WordPress”, comentavam isso até com ar de zombaria.

Logo pensei como era errado com os leitores, que acreditavam que as dicas de consumo do blog eram de Páris. E também o quanto era injusto com a Andreia e comigo! Posso dizer por mim: sou formada em jornalismo, com experiência e queria trazer pautas menos bobas como “looks do dia” em troca de nenhum reconhecimento!

Daí você pensa, “mas ela passava um relatório e você escrevia, certo?” Errado. Não podíamos nem perguntar muito porque ela se incomodava fácil, tínhamos que caçar informações sobre ela para escrever no próprio blog dela. Sim, o quão absurdo é isso, eu sei…

E eu fazia as redes sociais também (Facebook e Twitter) me passando por ela. Sempre que alguém escrevia “obrigada, Páris por me responder, ganhei meu dia, você é uma fofa”, eu me sentia uma falsária! Muitos imploravam para Páris seguir no Twitter, eu confesso que pensava “o que custa, né?” e seguia vários, coisa que, certamente, ela não aprovaria.

No Instagram, onde ela tem muito mais visibilidade, Páris fazia os próprios posts. Mas eu que redigia e acompanhava os publicitários. O mais desagradável era ter que cobrá-la desses posts pagos. Ela sempre reclamava do que os clientes pediam, atrasava e, claro, as respostas atravessadas sobravam para mim! Sem contar os problemas que surgiam a qualquer hora da noite! Meu WhatsApp nunca foi tão movimentado!

Após três ou quatro meses lá, me comunicaram que eu assumiria o cargo de “editor- in-chief” e a Andreia teria outra função fora do blog. Pronto! A bomba estava mais firme e forte do que nunca no meu colo e a Andreia chateada, bem ali ao meu lado (sim, trabalhávamos lado a lado). Não me pergunte por que editor-in-chief e não editora-chefe, lá tudo era em inglês. Não fazíamos um telefonema, era um “call”, as reuniões eram “meetings” e etc. Mas, afinal, o que era ser editor-in-chief? Neste blog era fazer todo os posts e redes sociais sem a ajuda da Andreia.

A partir daí, eu escrevia quatro posts diários, a maior parte eram publiposts, conteúdos vendidos e não sinalizados como comerciais. Um dos sócios só me falava em “negócios” e em pensar em pautas que poderiam virar dinheiro. A preocupação com a qualidade da informação ou com a leitora quase nunca era assunto por lá. Confesso que fui à minha prateleira de livros acadêmicos pesquisar nos meus livros sobre Ética na Comunicação, mas eu nem precisava disso para saber que não era certo.

As outras matérias eu escrevia com mais prazer, era sobre o que eu gostava: lançamentos de beleza, tendências, tapete vermelho e etc, mas nada muito inovador para não dar bandeira de que não era Páris que redigia. “Se tiver dúvida pergunte para a Andreia, ela conhece o gosto da Páris”, me falou o sócio. Eles me disseram que Páris só gostava de marcas internacionais e de luxo. “Só marca top”, aliás, nunca fiquei em um lugar onde repetiram tanto a palavra “top”. Talvez esse excesso de inglês (mal utilizado até) era para agradar a Páris, que também falava assim. Vai saber…

Insatisfeita com tantas funções, pedi para começar a assinar os textos e até concordei em fazer ghostwritting para a Páris em um post por dia. Um dos sócios falou para eu fazer como achasse melhor desde que os acessos aumentassem. E foi o que eu fiz, além de chamar Andreia de volta para o blog.

Falei em contratar mais gente, mas era um gasto “desnecessário”, então, com o blog em minhas mãos, convidei colunistas e colaboradores (jornalistas que eu conhecia) para escrever. A ideia era depender menos de Páris, que parecia desacreditada no próprio blog. Isso sem comprometer a qualidade e melhorar o seo (os acessos). Eu passei a editar e a subir todos os textos.

Um dia, em uma festa, apresentei para Páris uma dessas colunistas, que perguntou: “você tem gostado dos meus textos?” e Páris respondeu: “não tenho tido tempo de entrar no site”. Imaginem minha cara nesse momento. Descobri que ela nem acessava o próprio blog!

Logo depois, o outro sócio viu as assinaturas (com um certo atraso, é verdade) e se incomodou muito. Assim, os três decidiram que só Páris teria uma foto e biografia embaixo de cada post (escritos por mim ou Andreia). As colunistas continuariam assinando, mas algumas seriam dispensadas em seguida pois eram vistas como concorrentes (ameaçando o “brilho” de Páris). Nada contra ghostwriters, mas se todo jornalista for um, o que será da profissão? Além disso, é justo com os leitores que acham que a Páris é a autora ou, pelo menos, vê o que acontece no blog? Andreia viu que não valia a pena e parou de fazer os poucos posts que escrevia. Sobrou tudo para mim de novo.

Continuar enganando todos os seguidores da blogueira e criando publiposts questionáveis ou seguir meu coração e fazer um trabalho honesto e verdadeiro, que eu realmente acredito? Lembrei das razões que me fizeram escolher o jornalismo de moda e como eu acho que ele pode mesmo mudar e melhorar a vida das pessoas (como faz comigo). Escolhi a segunda opção.

Saí de lá mais feliz do que quando a Andy jogou o celular na fonte de Paris, em O Diabo Veste Prada! Era a coisa certa a ser feita, sem dúvida!

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  1. José Matos
      05/08/2015 - 02h09

    Excelente artigo. Que fique a dica para quem quiser contratar jornalista: tem que combinar antes se o profissional será assessor de Imprensa ou repórter, articulista, colunista. Não assinar matéria é normal e perfeitamente ético, aceitável, em assessorias de Imprensa; muitos discursos de autoridades, por exemplo, são escritos por assessores, que se mantêm bem próximo de seus assessorados para traduzirem da forma mais precisa possível o que eles pensam. E muitas vezes o assessorado nem pensa, mas é função do assessor pensar por ele e convencê-lo; logo, a ideia, o conteúdo divulgado, deixa de ser propriedade do jornalista, inclusive o crédito. Mas, se contratou para uma função diversa (repórter, articulista, colunista), é desrespeito não permitir ao profissional assinar uma matéria. O que li da sua narrativa trata-se da plágio descarado, de apropriação forçada da identidade do autor.

    •   05/08/2015 - 14h01

      Obrigada pelo comentário! É importante saber a opinião dos outros profissionais da área! Bjs

  2. Juliana Almeida
      13/08/2015 - 01h04

    Acho que vc deveria revelar o nome dessa “blogueira”, até acho que sei quem é! Mas isso é realmente injusto com os leitores! Muito boa matéria

  3. Van Mendes
      28/09/2015 - 15h27

    Estou conhecendo a blogosfera da moda, e o que tenho visto é muita propaganda de marcas, grifes, empresas anunciando seus produtos etc. Você entra em um blog pensando que vai encontrar textos reais e sinceros sobre assuntos de moda, mas na verdade se depara somente com um comércio e uma chuva de posts patrocinados. E agora lendo esse post, posso concluir que o propósito desses blogs não é informação e sim o lucro de quem “escreve” e as empresas. Lógico, existem raras exceções.

    •   29/09/2015 - 00h03

      Oi, Van! Infelizmente a maioria não está preocupada com informação de qualidade mesmo! Mas acredito na força da internet e que os leitores vão acabar selecionando naturalmente os bons blogs… Grande beijo e obrigada pelo seu comnetário!

  4.   08/12/2015 - 11h28

    Marcela parabéns pelo excelente e verdadeiro texto, fiquei sem palavras!
    Infelizmente muito verdadeiro, essa é a real do mundo virtual, mas não perderemos as esperanças, vamos ter mais fé em nos mesmos e nunca deixar a ética e essência de lado! Grande Abraço! Patrícia Cabral Até compartilhei lá no minha página do face, espero que não se importe!

    •   08/12/2015 - 12h28

      Oi, Patrícia! Que bom que gostou, fico feliz =) não me importo, ao contrário! Grande beijo!

7 comentários