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Baile da Vogue + Pop África

Todo ano, a edição brasileira do maior título de moda do mundo (aka Vogue) faz um baile de carnaval, o famoso baile da Vogue. Essa festa tem tomado proporções surpreendentes na mídia fashion e encantado muitas famosas e anônimas, até aí, tudo ótimo. No dia seguinte, é sempre uma diversão ver galerias dos looks e o que rolou na comemoração (ou no dia, no instagram mesmo). Uma festa legal com o povo da moda, algumas blogueiras e algumas Valeskas Popozudas para deixar o ambiente mais engraçado. Quem não gostaria de estar lá? Aparentemente todo mundo.

Bom, isso era o que eu pensava até o ano passado, pelo menos, quando li a primeira crítica ao tal evento em um texto brilhante da Sofia Mariutti na revista Piauí, o #LaGrandeFolie, esse nome é uma referência ao tema daquele ano, que resgatava as comemorações de Maria Antonieta nos palacetes, na fase adolescente da mulher de Luís XVI. O texto da jornalista é uma crítica velada, ele começa tranquilo e vai se intensificando até que me fez perguntar: o quão ridículo é um baile no Brasil do século 21 em homenagem às festanças da corte de Versalhes? Corte que inclusive foi toda decaptada pelos excessos enquanto o povo pré-revolução francesa passava fome. Era, no mínimo, ultrapassado. Obrigada, Sofia por ter me explicado o óbvio.

O tema deste ano seria outro, mais atual, mais cool, certo? Não! Não tinha como errar mais: Pop África. Tenho que admitir que quando vi o tema pela primeira vez não achei nada de mais. MESMO! Até ler outra crítica (desta vez da maravilhosa JoJo do blog Um Ano Sem Zara e que virou UASZ)! Jojo colocou bons argumentos contra o tema Pop África e abriu meus olhos.

Look tribal de Sabrina Sato na festa da Vogue.

Look tribal de Sabrina Sato na festa da Vogue.

Vamos lá: África é um continente, mas não um continente qualquer, é o terceiro maior do mundo e o segundo mais populoso. São 54 países diferentes na religião, na origem, na etnia, na colonização, enfim, em tudo. Fora os territórios independentes, que são oito. Como então fazer o tema África Pop? O que os convidadas usariam? Looks da Namíbia ou de Marrocos?

Eles optaram pelo senso comum e reforçaram a imagem dos colonizadores em relação ao continente: estampas de animais exóticos, pinturas primitivas, penas, adereços de miçangas e ossos; uma outra usou moedas na cabeça (oi?), outra usou lentes de contato azul para ser a Cleópatra (mas ela não era negra, gente?). Sabrina Sato estava nua (praticamente) e Jojo contou que ela disse no snapchat que a apresentadora disse que adoraria ser africana e andar pelada por aí, só de correntes e penas, de qual tribo do século 21 será que ela estava pensando que estava fantasiada?

Enfim, o baile da Vogue só reforçou esterótipos. É como se fizessem o tema Itália e todo mundo fosse vestido de mafioso siciliano ou de looks à tarantella. Como cidadã italiana, eu ficaria bem brava porque eu sei que a Itália não é isso e não é assim que eu gostaria que ela fosse representada! E nem a África é selva! Não ficamos bravos quando falam que o Brasil é só a Amazônia? Então, gente! É a mesma coisa.

Essa questão sempre me incomodou na moda, aliás, quando eu participava de pautas de uma revista, sempre alguém sugeria o tema “étnico” e eu perguntava: “O que é étnico? A Islândia é étnica? O Egito (na África) é étnico?”, nunca entendi. Tem temas que não significam nada, já repararam? Enfim, Pop África é um deles e espero que a Vogue ache um jeito mais legal de comemorar o carnaval no próximo ano.

Outro ponto que a Jojo colocou, só uma negra estampou a capa da revista Vogue Brasil no ano passado: Naomi Campbell (que é inglesa, aliás). E quantos negros estavam lá? Bom essa resposta eu deixo para um dos convidados da festa, esta foi a impressão de Yvan Rodic (do blog Facehunter):

 “Uma festa com tema África, num país tão miscigenado e 90% dos convidados são brancos.”

É, incoerente! O que vocês acharam?

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