História da Moda

hamsá ou mão de fátima na moda e a apropriação cultural

Você reparou que a mão de fátima, chamsa, hamesh ou hamsá (sim, são vários os nomes para esse mesmo símbolo) invadiu a moda, nos últimos tempos? Eu vou escrever como isso aconteceu, mas antes, vale lembra o que é a mão de Fátima: o desenho da palma de uma mão simétrica virada para cima ou para baixo e com alguns adornos dentro (que podem variar muito de estilo e traço). Lembrou? Você já deve ter visto por aí! Esse antigo símbolo é usado em várias religiões e culturas e é muito forte entre os árabes – aliás, Fátima refere-se à filha de Maomé para os islâmicos. Pesquisando, vi adornos de hamsá no Norte da África, no Oriente Médio e até na Índia. No judaísmo é um amuleto contra o mau-olhado, que acabou sendo adotado por alguns católicos com o mesmo objetivo em acessórios, camisetas e nas casa. Li muitos sites que comparam a mão de Fátima e a abhaya mudra do budismo e apesar de achar que elas têm estéticas diferentes, representam a mesma coisa. Tem estudos que falam que a mão de Fátima é anterior ao islamismo e ao judaísmo e especula-se até que nasceu entre os povos fenícios, mas a verdade é que é difícil precisar onde e como esse símbolo nasceu, o que aumenta seu mistério.

Mão de Fátima, hamsá, chamsa na moda. e seu significado

Eu com a camiseta de mão de Fátima com estampa artesanal, desenvolvida por uma amiga.

Bom, mas além de um símbolo cheio de significados em tantas culturas, vem sendo usado na moda e acho interessante saber o que carregamos (literalmente) nas roupas e acessórios do dia a dia, foi essa a minha motivação para escrever este post. Tudo comunica e usar uma estampa sem saber do que se trata pode, no mínimo, transmitir uma mensagem diferente da que você queria. O segundo motivo é que tenho estudado muito a apropriação cultural na moda, é um tema tão complexo que eu vou escrever sobre isso analisando caso a caso. Mas, adianto que quando uma pessoa católica e ocidental (eu, por exemplo) usa a mão de Fátima nas camisetas, pulseiras e colares é, sim, uma forma de apropriação cultural, porém não com o caráter negativo que essa expressão tem ganhado, em minha opinião. Aliás, a própria história da hamsá é de apropriação cultural entre árabes e judeus.

Colete com a mão de Fátima da marca Cavalera.

Colete com a mão de Fátima da marca Cavalera.

Mas voltando ao significados desse símbolo, você pode estar se perguntando como algo tão antigo foi se popularizar no Ocidente e parar na moda recentemente. Eu me perguntei isso e uma das explicações que encontrei é que a hamsá ressurgiu com um novo significado nas últimas décadas, muito mais interessante do que se imagina e quase político!

Os padrões e estampas de roupas não têm um significado eterno. Eles podem mudar com a região, mas também com o tempo e o contexto. E a mão de Fátima é um dos mais novos exemplos disso. Hoje, ela tem sido usada por muitos no Oriente Médio e no mundo com um significado a mais: o da paz. Ele foi invocado pelos que defendem o fim dos conflitos  entre israelenses e palestinos porque justamente é um ponto comum entre árabes e judeus. Por isso, eu – uma brasileira de origem italiana – uso e gosto, quer um motivo mais nobre do que esse para usar a estampa sem medo dos crítico da apropriação cultural de plantão? Mostrando, aliás, que a apropriação nem sempre é algo ruim.

Agora, se alguém que não é judeu ou árabe usa a mão de Fátima apenas como um amuleto contra o mau-olhado, não tem nada de errado também. Tenho pensando que esse julgamento do que é ou não apropriação cultural é tão cheio de censuras que impediria inúmeras criações genais. Mais um exemplo, além da própria mão de Fátima? Estava bem ali na minha estante de livros, nem precisava ir tão longe e se confundia com a minha história. Enquanto escrevia esse texto, bati o olho no livro Os Vagabundos do Dharma de Jack Kerouac, um dos meus autores favoritos, e lembrei do quanto ele foi o responsável por me apresentar traços da cultura budista e de como esse olhar Ocidental (parecido com o meu) para algo “exótico” pode também ser interessante e enriquecedor. E foi, na minha adolescência.

Como escrevi antes, acho importante  saber os significados das estampas que você escolhe para o seu guarda-roupa e vou escrever sobre a apropriação cultural nociva – sim, a verdade é que nem sempre ela é um troca cultural “justa” como neste caso, por isso, me posiciono contra os exageros, mas mais do que isso: acredito que ficar atento sobre a origem das roupas, as condições de trabalho de quem fez e até uma análise crítica da embalagem da roupa são, muitas vezes, mais importantes. Às vezes, medidas mais mais eficientes e menos mimimi da internet dos críticos radicias da apropriação cultural é o que a gente precisa. Sem essas condições, é impossível ter uma moda e um mundo mais sustentável e justo.

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