Beleza

Manu Gavassi: mais um capítulo da novela jornalismo que não entende novos tempos

Se tem uma coisa que eu ouvi muito na vida de jornalista foram outros jornalistas falando que amam o tal cheirinho de papel, de revista nova e que a leitura digital não tem a mesma graça. Mas acho que estão todos acabaram entendendo que o impresso está com o público bem mais restrito e que pode muito bem estar com os dias contados como veículo de massa. Se os jornalistas finalmente se deram conta disso, eles ainda não se adaptaram aos novos tempos quando o assunto é o conteúdo. Não entendo velhas fórmulas ruins do jornalismo sendo repetidas ano após ano. O caso da Manu Gavassi na capa da revista VIP, deste mês, é um exemplo disso.

Manu Gavassi na Vip deste mês: quase irreconhecível

Manu Gavassi na Vip deste mês: quase irreconhecível

Com as redes sociais e internet, as revistas não são mais as donas da informação. No jornal, por exemplo, eu só tinha duas opções: Folha de São Paulo e Estadão. Hoje, tenho mil outras possibilidades – acabei de acessar o site brasileiro do espanhol El País, por exemplo. Por conta disso, estou mais crítica como leitora com pautas e conteúdos, simplesmente porque a concorrência é maior. Na moda e na beleza, o raciocínio é o mesmo, mas além de sites de jornais de fora, tem tutoriais de maquiagem de gente comum, resenhas, vários blogs, novos sites e tudo isso não mudou só o que a gente lia, mas também a estética do conteúdo. Muitas mulheres encontraram um ótimo nicho na internet e que a imprensa tradicional ignorava: o de valorizar a beleza natural. Se as revistas pregavam cabelos lisos, peles perfeitas e photoshopadas (clichês tãooo cansativos, mas que pareciam vender mais), veio uma forte onda de maquiagem natural e cabelos cacheados de quem não queria mais parecer com as capas de revista e que influenciou muitas mulheres.

Junto dessas mudanças surgiu uma mulher mais “empoderada” (essa é palavra da vez), mais feminista e que usa a maquiagem para se valorizar e não se transformar. É uma diferença sutil, mas acho que as revistas não entenderam isso ainda. E Manu Gavassi, sem dúvida, faz parte desse novo grupo de mulheres. Eu nem a conhecia muito, mas não é difícil notar isso. E justo com a cantora Manu Gavassi, a revista VIP pesou na mão do photoshop (será?), produção ou qualquer outro recurso que a fez parecer um boneco de cera na capa. As bochechas tão marcadas é o que mais me incomoda, mas os fãs repararam nos quadris mais largos. Manu é muito forte redes sociais e, assim que saiu a revista, seus seguidores começaram a falar mal da edição.

Talvez, há alguns anos, essa capa jamais seria discutida. Ela está bonita e até dá para ver que é a Manu, eu já vi casos de pessoas irreconhecíveis. As fotos de dentro estão lindas também, achei que o fotógrafo escolheu uma luz bonita e ângulos interessantes. O que aconteceu, então? Para mim, não tiveram a sensibilidade deixar Manu à vontade, mais natural e mais ela. Não souberam escolher uma maquiagem e produção de acordo com essa nova mulher que ela mesmo representa. A revista é para um público masculino, eu sei, mas até os homens mais desligados sabem que ela não parece real na capa e que não precisava de tantos artifícios para estar linda. Se tem excesso de photoshop? Não sei porque não peguei a revista na mão para analisar com cuidado, mas Manu está sem nenhuma marca de expressão no rosto e a maquiagem é um tiro no pé. De tão pesada, dá para ver detalhes, como o o lápis branco na linha d’água, o iluminador nos cantos internos dos olhos e no comprimento do nariz e esse contorno tão marcado nas bochechas, que mudou a expressão dela, mais até do que photoshop. Os cílios estão enormes também. Quem ama maquiagem, como eu, sabe bem que todos esses recursos são para afinar o rosto e o nariz e levantar o olhar, será que precisava disso tudo? Ela é tão bonita naturalmente. É mesmo necessário ter o rosto tão fino para ser sexy? Outra coisa que me incomodou foi essa produção – quem tem um body de mangas compridas e transparente como esse da capa? Não pode ser sensual com uma t-shirt podrinha, não?

Como sou branquinha, notei também que a cor da pele dela está diferente, ela não é tão bronzeada assim. E repito minha pergunta: precisa ser bronzeada para ser sexy? Esse tipo de padrão é exatamente o que essas novas mulheres estão discutindo. Foram anos de imposição de nariz fino, cabelo liso, pele bronzeada e agora queremos nos sentir bem sem tanta máscara, sem tantos padrões, artifícios e muito mais livres. Sendo quem a  gente é. E foi isso que os jornalistas que produziram essa capa provavelmente se esqueceram, os tempos são outros e as mulheres também.

Manu Gavassi em sua campanha #MeSintoLindaComoSou no Instagram

Manu Gavassi em sua campanha #MeSintoLindaComoSou no Instagram

Em resposta, ela lançou a campanha #MeSintoLindaComoSou e fez um outro editorial com a maquiagem bem mais leve, cabelos desgrenhados e uma luz natural. Adorei que ela pegou peças de roupas de um guarda-roupa normal, t-shirt e até calcinhas larguinhas. Sim, estar bem com o corpo e a imagem é o novo sexy.

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  1.   18/05/2016 - 02h32

    Adorei o post! É uma bela crítica, realmente a internet trouxe uma nova forma de olhar, analisar e criticar as informações!
    Achei essa ideia da Manu incrível, não esperava isso dela e o ensaio com a fotografa ficou todo incrível!
    Beijos!

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